Caos Ordenado

A arte de descomunicar-se

Ao passar um mês inteiro sem celulares, blogs, twitters e conversas fiadas, você começa a perceber como, afinal, funciona a comunicação.

Bertolt Brecht
O dramaturgo Bertolt Brecht, que queria que seu teatro deixasse claro para as pessoas que elas assistiam a uma ilusão.

Já faz uns 4 anos que costumo reservar o mês de janeiro para fazer retiro. Para alguns, isso pode soar new age ou hippie. Para outros, uma espécie de férias. Mas não se trata disso.

O que, afinal, eu faço durante esse período?

Para simplificar, seguindo as instruções de um professor qualificado, dou uma espécie de pausa em alguns dos meus padrões habituais de comunicação. Durante um mês, nada de celular, Twitter, blogs e até mesmo conversas fiadas.

Mas isso não implica necessariamente em silêcio. Pelo contrário: quando você cala sua boca, aí começa a enxergar melhor como funciona a comunicação.

Pausa? Que pausa?

Na verdade, não existe uma pausa perfeita. Quando você se propõe a parar de seguir seus hábitos automáticos, estes correm atrás de você.

De repente, você começa a perceber que tipo de comunicação estabelece consigo mesmo. Ou seja: como funciona a conversa “interior” que influencia e determina sua ação “exterior”. É como se o seu cérebro fosse tomado pelo Google Analytics.

Você descobre que praticamente não está no controle da sua própria fala. Com alguma sorte, experimenta o quão tensa, limitada e ineficiente pode ser sua comunicação. Mesmo que seja o mais esperto dos jornalistas, o mais eficiente publicitário ou o mais “profundo” escritor.

Auto-hipnose

No cotidiano, sequer temos tempo e oportunidade para perceber essas coisas. Nos perdemos em senhas, novidades tecnológicas e possibilidades de criação. É tudo tão automático que um discurso como esse que você está lendo agora soará paranóico ou inútil.

Tudo é tão hipnótico que perdemos o costume e o interesse em perguntar: por que comunicar? É como ir ao cinema e esquecer que assistimos a uma ilusão. Pode ser divertido, mas, cedo ou tarde, você terá que sair da sala. Ou alguém vai expulsá-lo.

Obviamente, iPad, celulares e demais aparelhos não produzem compreensão sozinhos. Mas produzem sim mais palavras e hábitos de comunicação. Muitas vezes, acabamos usando essas tecnologias só porque as compramos e temos certo prazer em brincar com elas. E, assim, mesmo que não tenhamos exatamente o desejo de nos comunicar, produzimos causas e consequências dos ruídos de comunicação. De repente, nos vemos completamente ocupados gerenciando spams voluntários.

Estranhamento

No caso da internet e da comunicação digital, até que o efeito V de Bertolt Brecht (foto acima) poderia voltar à moda, não acha? Como comunicar mostrando as ilusões da comunicação?

Um pouco de ceticismo em relação ao rítmo e contexto da comunicação —digital ou off-line— poderia nos levar a perceber a quem ou a o quê, afinal, estamos servindo quando disparamos memes pelo universo.

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