A escola onde se questionava absolutamente tudo
O trailer de um filme (que não existe) sobre a universidade de Nalanda, na Índia
Acima, animação meio queima-filme criada para explicar Nalanda para os turistas de hoje em dia.
Da série “Projetos que eu não tenho dinheiro, tempo e nem competência para realizar”: o roteiro para trailer de um filme chamado A Universidade.
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Tela preta. Som abstrato de muitas vozes falando ao mesmo tempo. Aparece o letreiro:
Bihar, India, 600 DC.
Três monges correm por corredores estreitos e escuros. Parecem ansiosos. Procuram por alguém.
Monge 1 — Ele desapareceu novamente?
Monge 2 — Eu disse que não poderíamos confiar nele.
Monge 1 — Mas ele é aluno de Buddhapālita, não deve ser um estúpido.
Monge 2 — Não importa. Nós precisamos de leite pro café da manhã. Daqui a pouco todos os Monges vão descer. E aí ninguém vai querer saber de quem ele é discípulo. Vão querer a comida na mesa. Seremos punidos.
Os monges continuam revirando os corredores. O terceiro, que estava mais longe, grita para os outros:
Monge 3 — Está aqui!
Eles correm e se apoiam no canto da porta, espiando o que acontece numa gigantesca sala, na qual se pode ver uma pintura que cobre toda a parede. Close nas expressões dos monges, que agora parecem surpresos.
Tela preta novamente. Ainda sons de vozes. Mas agora um pouco mais reconhecíveis. Parecem vir de centenas pessoas discutindo ao mesmo tempo. Surge o texto:
Durante quase 800 anos, existiu uma escola…
Voltamos para a grande sala. Entre os detalhes do mural, há a pintura de uma vaca. Vemos um quarto monge sentado ao lado. Ele segura uma tijela e faz movimentos como se estivesse ordenhando o desenho. Surge o texto:
…na qual o principal objetivo era…
Monge 1, exaltado, para o Monge 4 — O que você está fazendo aí? Estamos atrasados na preparação do café da manhã!
Monge 4 — Vocês não me mandaram buscar leite?
Monge 2 — Sim! E você está aí, nos insultando?
Monge 1 — É? Ordenhando uma pintura de uma vaca?
Monge 2 — Você não sabe a diferença entre uma vaca real e uma imaginária?
Monge 4, completamente calmo — Vocês não me mandaram buscar leite?
Silêncio. O monge 4 exibe a tijela cheia de leite, que, aparentemente, saiu do desenho na parede. Os monges ficam atônitos.
…questionar tudo…
Vemos um Monge solitário num quarto minúsculo, sujo e mal iluminado. Ele sussurra, enquanto escreve num pedaço tosco de papel:
— Todo sofrimento do mundo vem de procurar prazer para si mesmo. Toda felicidade vem de procurar prazer para os outros.
… Absolutamente tudo.
O monge parece estar com frio. Agora podemos perceber que a parede do seu quarto tem um buraco, por onde passa vento gelado. O Monge enrola o papel no qual acabou de escrever. Depois de alguns ajustes na drobradura, usa o material para tapar o buraco. A câmera se afasta e podemos ver que o monge deve ter feito a mesma coisa antes, centenas de vezes. A parede está cheia de papéis fechando rachaduras.
Voltamos para as vozes. Mas agora vemos um pátio lotado de Monges debatendo. Parecem gritar ritualmente uns com os outros. À medida em que a câmera se aproxima, podemos ouvir alguns dos diálogos:
Monge em pé (mostrando uma das mãos para um monge sentado) — Quando você olha para sua mão, você comete 3 erros: acha que ela é a mesma de ontem, que é uma coisa só, em vez de várias partes interrelacionadas e que… (não conseguimos ouvir o resto da fala).
Agora vemos uma panorâmica de um impressionante complexo de prédios, cheio de templos, anexos e torres avermelhadas. Surge o logotipo do filme:
A Universidade.
A história de Nalanda, o maior centro de estudos filosóficos da história da humanidade.
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[tweet]Essa ideia vem cozinhando na minha cabeça faz tempo. É um filme que eu gostaria de assistir, se ele tivesse sido feito. Resolvi tocar no assunto porque li que empresas estrangeiras baixaram na Índia e estão patenteando vários conhecimentos tradiocionais: de receitas de sucos a posturas de Yoga. Espero que um dia não tenhamos que pagar direitos autorais para poder recitar textos budistas. De qualquer forma, talvez eu desperte alguma curiosidade sobre a incrível universidade de Nalanda e seus alunos, digamos, fora do padrão.