Qual é o impacto ambiental do tedio?
Os conceitos fazem mais estrago no planeta do que os motores
Quando falamos de sustentabilidade, sempre pensamos em árvores, animais, rios e emissão de carbono. Mas o que o Facebook, o sexo, o cristianismo, o tédio ou qualquer outra ideia tem a ver com isso? Muito. É que há pelo menos dois outros tipos de ambientes, além do físico:
• O ambiente emocional — que lida com as relações psicológicas que temos com nossos corpos, com as pessoas e com os processos do planeta.
• O ambiente cognitivo — os sistemas vivos próprios da linguagem, dos conceitos.
Os três são inseparáveis. Funcionam numa relação complexa e nada harmoniosa. Um sabota o outro, que responde com novos padrões de criatividade, destruição e reajuste. Por exemplo, o tédio não deixa de ter implicações ecológicas.
Ecologia do tédio
Explicando. Ao longo da história, criamos sinais culturais que chamamos de “tédio”. De modo geral, não pensamos neles. Apenas os detectamos por meio de outros sinais, que, nos últimos séculos, aprendemos a chamar de biológicos —agitação, ansiedade etc.
Como nossa sociedade desenvolveu o hábito de achar que é necessário combater o tédio, ligamos o computador —que precisa de energia para funcionar— e procuramos lazer. Assim, o tédio indiretamente influencia o ambiente físico. Agora multiplique isso por alguns bilhões de pessoas.
Lazer virou obrigação
Até há pouco tempo, alguns sociólogos tinham um nome para o período em que nos preocupávamos com tédio e lazer: tempo livre. Mas hoje “diversão” e “felicidade” se tornaram conceitos fundamentais para movimentar a economia. Por mais vagos que sejam.
Lazer cada vez menos é aquilo que se opõe ao trabalho. A busca por lazer se tornou algo onipresente. Pode permear até mesmo o espaço profissional, via procrastinação, coffee breaks ou ambientes considerados como modernos e amigáveis (estilo escritório do Google). Mais que isso, as ideias de conforto e lazer viraram questão de saúde pública.
Assim, podemos até pressionar empresas e governos para diminuir suas taxas de emissão de carbono. Mas não podemos ignorar o impacto ambiental dos conceitos. Não custa lembrar: boa parte dos problemas de sustentabilidade nasce da necessidade de atender aos padrões de consumo da classe média, em especial dos países ditos desenvolvidos.
Fora de controle
Mas meu ponto é outro. Acompanhe o raciocínio.
Nossa relação com o ambiente cognitivo se baseia em níveis muito profundos de hábitos culturais. Geralmente, não conseguimos sequer detectar o quanto somos escravos da linguagem.
Agora considere outra coisa. Alguns cientistas afirmam que, afinal, temos pouco controle sobre o planeta. Por exemplo, pesquisas indicam que talvez o homem não seja exatamente o principal causador do aquecimento global. A Terra tem ciclos que mal começamos a compreender.
Ligue os pontos: sabemos relativamente pouco sobre os três tipos de ambientes, tanto o emocional quanto o físico e o cognitivo. Mas ainda estamos destinados a arriscar e sofrer as consequências. O que nos faz agir como um cachorro que corre atrás do próprio rabo.
Criamos novos conceitos de conforto e lazer que, aos poucos, se tornam indispensáveis. Estes produzem um custo ambiental, que cria novos problemas e novas necessidades de padrões de conforto.
Ambiente das ideias
Em essência, o ambiente dos humanos é a linguagem. Ela filtra e determina todas as nossas experiências. Todas. Não pode haver um ambiente mais instável do que esse. Portanto, as ações ambientalistas precisam considerar a imensa bolha de incertezas existenciais e emocionais em que vivemos. Até que ponto a cultura do lazer e do conforto é sustentável? Cedo ou tarde, os acordos de Copenhagen vão precisar chegar aos nossos sofás e desktops.
Imagem: Stalker, de Andrei Tarkovksky.
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